Raduan Nassar, o “novel” revolucionário.

 

O escritor Raduan Nassar recebeu o prêmio Camões, considerado o mais importante da literatura a premiar um autor de língua portuguesa pelo conjunto da sua obra, que consiste numa quantia pecuniária resultante das contribuições dos dois Estados.

No ato da entrega do prêmio, presidido pelo Ministro da Cultura do Brasil, Roberto Freire, o premiado resolveu promover um manifesto político, de acordo com suas convicções político partidárias, isto é, repetir as acusações que tem sido feitas pelo defensores mais dogmáticos do governo deposto pelo impeachment.

Nassar não tem um volume de obras extensa mas pelo prêmio obtido supõe-se serem de qualidade indiscutível.  Sua obra mais conhecida é “Lavoura Arcaica”, publicada em 1975.

O escritor nasceu em 1935 e há muitos anos não se tem conhecimento de alguma produção literária de sua lavra.

Isso não lhe tira os méritos no recebimento do prêmio.  O que chama a minha atenção são as frases que citou no seu discurso diante de uma pequena plateia que, em parte o aplaudiu e, em parte, se manteve silenciosa com visível desconforto.

Seu discurso mostra um engajamento político com o PT e um todo desconhecimento dos fatos – se não uma enorme desonestidade intelectual – que pretensamente apresenta como demonstrando que não vivemos em um Estado Democrático de Direito, apesar de receber o prêmio desse mesmo Estado acusado (do governo em exercício).

O laureado acusa o governo de diversas ações que teriam sido violentas.  Algumas delas nada tiveram a ver com ações policiais, como a invasão do PT em São Paulo, ou a pretensa invasão de escolas de ensino médio em vários Estados.  Outras o foram por determinação judicial e outras para evitar violência maior nas ruas perpetrada por vândalos sem nunca ter sido impedida a manifestação da oposição democrática.  E tudo isso, segundo ele, sob a responsabilidade de Alexandre de Morais inclusive, pasmem, as tragédias de Manaus e Roraima.

Segundo Nassar “esses fatos configurariam um governo repressor contra o trabalhador, contra aposentadorias criteriosas, contra universidades federais de ensino gratuito, um governo atrelado ao neoliberalismo com sua escandalosa concentração da riqueza o que vem desgraçando os pobres do mundo inteiro”.  Ainda segundo ele “um governo de exceção amparado pelo Ministério Público e pelo Supremo Tribunal Federal”, este por não ter impedido a instauração do processo que levou ao impeachment de Dilma Rousseff, para ele, um golpe consumado.  Aliás o mesmo STF cuja maioria dos membros foi indicada por Lula e Dilma.

Seria cômico se não fosse trágico.

Nassar termina seu manifesto com um bombástico “não há como ficar calado”, o que levou meia dúzia de pessoas aos espasmos histéricos de manifestações de apoio.

Pois também não ficarei calado.  Afinal qual é a história política de Raduan Nassar que o qualifica a tamanha explosão de falsa indignação?

Temos idades próximas, ele dois anos mais velho que eu e um pouco mais ainda que Roberto Freire.  Somos todos contemporâneos, eu e ele paulistas de nascimento e de vivência.  Não conheço qualquer participação dele, nesses últimos mais de 50 anos, em que ele tenha estado presente, de uma forma ou outra para protestar e agir contra o regime autoritário.  Eu e o Roberto, em todos esses anos, estivemos presentes, demos as caras pra apanhar, arriscamos nossas vidas e nossa liberdade na luta contra a ditadura e pela reconquista das liberdades democráticas.

No atual momento nossa decisão é contribuir, da forma que for possível, para superar o desastre provocado pelos governos petistas nos últimos 14 anos.  Michel Temer não é presidente porque nós o escolhemos.  Ele foi escolhido por Lula e Dilma para ser o vice da candidata.  Por isso ele, com o impeachment, é o presidente atual.  Desejar que dê certo é um imperativo dos interesses do povo brasileiro.

Raduan Nassar sempre esteve ausente.  Resolveu agora, usando das liberdades que conquistamos graças à luta de milhares de patriotas, ter o seu momento de glória.

Roberto Freire fez muito bem dando a resposta adequada no momento mesmo do ato de premiação.  Tem credenciais que superam em muito as do escritor, ao menos no campo político. Nem ele, nem eu temos telhado de vidro.  Por isso não nos intimidamos pelos discursos levianos e falsos dos que são incapazes de fazer a devida autocrítica sobre o tão lesivo período de governo petista.

 

 

 

 

 

 

 

Não há como ficar calado.

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6 comments

  • José Pereira 20 fevereiro, 2017   Reply →

    POUCAS VEZES SE VÊ COMENTÁRIO TÃO PRUDENTE E ÍNTEGRO SOBRE O BRASIL NA FASE CRÍTICA E DE AJUSTES QUE VIVEMOS!
    MUITA FORÇA, ENERGIA E INTELIGÊNCIA A TODOS NÓS! PARABÉNS PELO TEXTO, PARABÉNS!
    OBRIGADO, ABRAÇOS!

  • Luiz Loureiro 20 fevereiro, 2017   Reply →

    Mandou bem, Goldman! Acho que o Raduan tá gagá. É impressionante como pessoas com vasto cabedal intelectual tenham esses surtos psicóticos, a exemplo do Chico Buarque e o do próprio Raduan, dentre outros. Tá certo que a gente tem que dar um desconto aos artistas. Eles pensam diferente, mas tudo tem limite, né? São “intelectuais” com discurso jurássico. Também sou da sua geração e batalhei e sofri como você e o Freire. O Raduan sumiu, omitiu-se e, agora, vem com esse papo oportunista, raso, demagógico e vergonhoso.

  • Alberto Figueiredo 20 fevereiro, 2017   Reply →

    De fato, é o governo que se tem e que torçamos para que dê certo, de modo a não desgraçar ainda mais o país, principalmente, os 12 milhões de desempregados. Nada mais oportuno para lembrar ” enquanto os cães ladram a caravana passa”, daqueles incapazes de reconhecer além do resto, da leviandade de retroagir em mais de 20 anos a evolução do Brasil, pela irresponsável tentativa voluntarista de confundir a realidade com plataformas ideológicas insensatas.

  • Eros Roberto Grau 20 fevereiro, 2017   Reply →

    Meu velho Amigo!
    Que beleza de texto! Você escreveu o que eu tive uma vontade imensa de gritar quando tomei conhecimento da fala desse sujeito.
    Obrigado, meu camarada, por dizer tudo por mim.
    Abraço de verdade!
    eros

  • Claudio Goldman 20 fevereiro, 2017   Reply →

    Muito bom.

  • Luiz Freitag 21 fevereiro, 2017   Reply →

    Lamento o que ouví do escritor. Não sabia dessa condição política. Também aí não era hora para fazer esse tipo de discurso. Dever-se- ia fazer devolver tanto os euros como o diploma como já sugeriu o Roberto Freire. Acho que os petralhas que lá estavam foram para incomodar mesmo. Devolva os euros, Sr. Raduan Nassar!.

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