Os últimos dias de Dilma Rousseff: rastejando para sobreviver

 

Já não bastava vermos a presidente da República absolutamente abalada e desmoralizada com o quadro econômico e político que ela mesma ensejou.

A sua campanha eleitoral foi um grave auto engano.  Acreditava que mentir da forma como mentiu e usar de todo e qualquer expediente para vencer (não seriam lembrados após a vitória).  Talvez não tivesse consciência da gravidade do quadro para o qual  já tínhamos alertado.  Ou então tinha mas o objetivo maior, a vitória, mais importante do que qualquer coisa.

Se assim não fosse talvez tivesse tirado as conclusões corretas da vitória numérica que tivera, ainda que soubesse da forma imoral pela qual foram obtidos os recursos financeiros para a realização da campanha e tivesse clareza do estelionato ao qual se curvara.

Que conclusões seriam?  A mais importante: que, mesmo nessas condições. venceu por larga margem entre o eleitorado mais pobre e dependente dos programas de auxílio financeiro do Estado brasileiro e que perdeu por larga margem entre o eleitorado mais independente, cuja geração de renda depende do resultado do trabalho, seja ele do trabalhador regular ou do empresário.

Tivesse plena consciência disso talvez tivesse chamado os derrotados para um grande acordo nacional que enfrentasse as turbulências já plenamente visíveis no horizonte da economia do país.  Não o fez por cegueira, por incompetência, por arrogância ou por imaginar que tudo seria superado como num passe de mágica.  Perdeu o “timing”.

A fantasia da vitória não demorou muito tempo a se desvanecer.  Os desmandos de seu governo, de sua campanha, de seu partido e de seus aliados passaram a cobrar a conta.  E o país foi se afundando na recessão, na inflação, no desemprego, no drama fiscal.

A partir daí todos os véus foram sendo afastados e a realidade emergiu:  as pedaladas fiscais, as irregularidades na campanha eleitoral, as barbaridades nos fundos de pensão, o uso duvidoso do BNDES, e a corrupção avassaladora praticada pelos dirigentes de seu partido e dos partidos aliados na Petrobras e em outras entidades estatais.

Tudo isso foi suficiente para levantar a indignação do povo, condenar os  partidos de sua base de sustentação, acabar com as suas maiorias na Câmara e no Senado e, como consequência, inviabilizar o seu governo.

Esse é o quadro dramático em que vivemos.  Nessas condições, mais de três anos de governo pela frente, seria uma hecatombe para o país.

Hoje Dilma rasteja para sobreviver.  Tenta os últimos recursos para não ser afastada seja pelo Congresso, seja pela Justiça Eleitoral ou pela ação de milhões de brasileiros que já mostraram o seu sentimento e a afastarão através dos instrumentos democráticos que encontrarem.

Seu principal aliado político, o PMDB, não a sustenta nem com o fisiologismo atávico que o caracteriza.  Não tem qualquer unidade, nem qualquer propósito e responsabilidade pública quanto ao futuro do país.  Vai ao sabor das pressões e interesses, sejam de corporações funcionais ou empresariais, ou mesmo de interesses pessoais.  Seu principal quadro, o vice presidente Michel Temer não consegue dissimular o enorme desejo de se ver presidente, ainda que sem votos e sem prestígio popular.  Os presidentes da Câmara e do Senado, por seu lado, fazem o seu próprio jogo político, que nada tem a ver com a sustentação da presidente.

Tudo isso se agrava com o PT irremediavelmente dividido, abatido e rejeitado.

O PMDB ainda tenta disfarçar o seu empenho em ser governo.  Porém, como aconteceu em seu programa partidário da última semana, já não esconde que caminha para abandonar a presidente e se juntar à oposição.

O último lance da presidente, o auge da humilhação, foi chafurdar na lama: ofereceu à bancada do PMDB na Câmara (aos apenas 42 deputados do partido que ainda a apoiam) os ministérios da Saúde e da Infra estrutura, esse último somando o que são hoje os Ministérios dos Transportes, Portos e Aviação Civil.

Ela não escolheu os nomes da bancada. Foi essa que indicou quais os nomes para que ela escolha entre eles.  Negociação assim eu nunca assisti, muito menos em ministérios dessa importância estratégica.  No caso da Saúde, um impasse: um dos nomes já havia criticado duramente o programa Mais Médicos, atualmente matéria de publicidade nos principais meios de comunicação; o outro não tem o apreço do presidente da Câmara, já que com ele não rezou na cartilha da natimorta reforma política.  Não vai dar certo.

O governo acabou e a presidente vai, dia após dia, se desmoralizando ainda mais.  Não vai lhe sobrar nem um pouco do orgulho que sempre ostentou nem do respeito que o povo já lhe dedicou.

 

 

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