Letargia

Parecia um estado de letargia.  Sonolência. O povo anestesiado. Feliz porque pode comprar mais, obter alguns bens que via, aos quais não tivera acesso. Sem compreender as razões dessa melhoria, creditou-a ao presidente Lula.  Esse, isento de escrúpulos, incapaz de reconhecer o que havia sido feito por seus antecessores, incentivou o próprio mito que lhe permitiria, não só buscar a própria reeleição, ainda que por interposta pessoa, mas extirpar da vida pública pessoas e partidos que, segundo seus conceitos, o agrediram ou tornaram a sua vida mais difícil. Não lhe basta ter o presidente, e ter indicado a maioria dos membros do Supremo Tribunal Federal.  Quer a maioria do Senado e da Câmara, o que lhe permitiria mudar a própria Constituição ao seu próprio alvitre.

As coisas podem estar mudando. Não é certo, mas é possível. Foi preciso mais um escândalo no núcleo do governo federal, para que se relembrassem outros que, com o tempo, eram esquecidos, como se não tivessem existido.  Como se não houvesse um padrão de comportamento do comando desse governo. Lá atrás, em 2003, começamos com o Waldomiro Diniz, subchefe da Casa Civil, braço direito do José Dirceu, responsável pelas negociações do governo com o Congresso, íntimo dos parlamentares governistas, visto em gravação nacionalmente exposta negociando uma propina durante a discussão no parlamento de projetos relativos ao funcionamento dos bingos. Até agora o seu processo está em andamento. Depois disso tantos e tantos, sempre envolvendo o presidente ou as figuras mais próximas dele.

Alguma esperança?  Sim, eu tenho muita.  Como sempre tive.  Como quando decidi, ao lado de outros, enfrentar a ditadura, na década de 70, quando os militares também proclamavam o país maravilhoso que estavam construindo, o milagre brasileiro, o aumento do consumo dos pobres –  na mesma forma e conteúdo que assisto nos programas de campanha de Lula/Dilma.  Cada vez é um choque, vejo-me retroceder àqueles tempos em que a população, anestesiada, aceitava, em troca de algum pequeno conforto, que se tolhesse a liberdade e se matasse e torturasse milhares de brasileiros que lutavam pelo retorno da democracia. Ainda assim, vencemos.

Felizmente não é a mesma coisa, caso contrário não estaria livremente escrevendo essas linhas, mas o sentimento que me fica é o mesmo. E não sei se, enfrentando um homem que com seus 80% de aprovação, julgando que tudo pode, sem que qualquer valor ético o sensibilize, envolvido por grupos políticos e econômicos sem compromissos com o país, não terei de estar revivendo tempos passados.

Volto a dizer, tenho esperança e estou de “armas” na mão. O povo está acordando. Até que ponto, vamos ver e vamos ajudar a acontecer.

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2 comments

  • lzmll@hotmail.com 27 setembro, 2010   Reply →

    É reconfortante contar com a experiência e a alta crítica de nosso Governador, “armas” de excelência a restabelecer a verdade, face às injustiças e à anti-democracia instaladas.

  • Parabéns, Governador,
    Sua coragem fica evidente, mais uma vez, coragem para postar sua opinião nesse veículo de tão democrático acesso.
    Tenho certeza que o Serra usou a estratégia equivocada ao evitar o confronte com nosso tão “popular” presidente.Ao não fazer das realizações de FHC bandeira de campanha destruiu covardemente nossas esperanças de tirar do poder esse partido corrupto e mal intencionado.

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