Há sinais de vida

Durante toda a minha vida política (comecei minha militância aos 18 anos), participei de todos os episódios que envolveram as eleições presidenciais e estaduais. Lembro-me, garoto, em comício do Adhemar de Barros, na praça Princesa Isabel, provocando vaias e sendo ameaçado pelos adeptos do candidato. Depois, em 1960, na campanha do general Lott, contra o Jânio Quadros.

Então um longo período de escuridão, com o golpe de 1964, os governos militares se sucederam, mas mesmo assim, com eleições majoritárias para o Senado em 1970, 74 e 78 o povo participou ativamente. Depois se iniciou a abertura política e, em 82, a enorme mobilização pela eleição do Montoro para o governo estadual. O processo político continuou quente em 86, com a eleição do Quércia, e em 89, a primeira eleição presidencial após a redemocratização, com a disputa acirrada entre Brizola, Covas, Ulysses, Lula e Collor.

Em 94, 98, 2002 e 2006, tanto nas disputas presidenciais quanto nas governamentais, as discussões, debates e confrontos se deram de maneira aguda, sempre em torno de políticas sociais e econômicas que afetariam o ritmo do país. E isso só fortaleceu o processo democrático.

Em 2010 tem sido diferente. Temos um presidente que atrai todos os ódios e todos os amores, que consegue trazer para si todas as atenções, que se tornou um líder carismático, um mito, e que faz questão de acariciá-lo e aprofundá-lo. Transmite ao povo que ele não precisa pensar, não precisa discutir, não precisa se preocupar, não precisa temer nada, já que ele preparou tudo para um futuro róseo e que sua Dilma vai concretizá-lo.

Usando esse mito, nega a ação de seus antecessores, ridiculariza-os. Sem pruridos, mente. Sem escrúpulos, distorce o nosso passado e mistifica sobre o nosso presente e nosso futuro. A campanha política, como nunca, virou isso. Chegamos ao fundo do poço da despolitização da vida brasileira. Por isso eu havia falado em letargia. Adormecimento.

Mas há sinais de vida. Sinto que as pessoas começam a se perguntar, a contestar, a avaliar melhor o passado e o presente, e as perspectivas de futuro. Afinal, se sabemos quem são o Serra e a Marina, com suas histórias, virtudes e defeitos, não sabemos quem é a Dilma.

Antes tarde que tarde demais. A possibilidade de um segundo turno só não serve aos que tem certezas absolutas, ou aos que não querem sequer parar para pensar, ou por cega fidelidade a um líder carismático.

Vamos lutar por um segundo turno. Quem vencer então terá muito mais legitimidade do que uma solução no escuro, como quer Lula. E terá melhores condições de enfrentar as dificuldades e as crises que virão.

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One comment

  • lzmll@hotmail.com 1 outubro, 2010   Reply →

    Certamente Governador!

    Não é possível que parte de nós brasileiros tenha ficado tão alheia à seriedade e à responsabilidade que envolve a escolha de nossos representantes.

    A falta de crítica e de curiosidade em se informar sobre o tema, lastimavelmente quando a civilidade perde espaço para a preguiça e a mediocridade não combatida de certos eleitores.

    Obrigado por nos renovar a cada artigo.
    Grande abraço,
    Luiz de Mello

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