Fecham-se as cortinas de uma era.   Um quadro novo vai surgir.

Nas eleições de 2014 o PT venceu numericamente, porém teve uma grande derrota política. Ficou clara a perda de sua liderança entre os trabalhadores dos setores industrial e de serviços, entre a juventude, entre os empresários pequenos e médios e entre os profissionais liberais nas principais áreas urbanas do país e nas áreas rurais mais desenvolvidas.  Ou seja, o PT foi derrotado onde a economia mais moderna e produtiva se implantou, onde a sociedade civil é mais ativa, mais participativa politicamente e menos dependente do Estado.

Nas eleições de 2014 o PT só foi maioria entre aqueles que, pela falta de rendimentos, dependem dos mais diversos benefícios do Estado que estariam ameaçados de extinção, segundo a versão petista, na hipótese de derrota da presidente.   

O PT, nascido como partido da classe trabalhadora e das elites intelectuais das grandes cidades, passara a ser o partido dos grotões e da população dependente do Estado. Na década de 1970 e começo dos anos 80, a ARENA, partido de sustentação da ditadura militar, cumpriu o mesmo itinerário e teve o mesmo destino que hoje atinge o PT. 

Nesse quadro a estabilidade e manutenção de um governo com essa base de apoio e a rejeição da maioria da sociedade produtiva e atuante passou a ser uma tarefa impossível, ainda mais com a crise econômica em que se encontrava o país e com os inúmeros escândalos cuja elucidação atingiu os principais comandos políticos petistas e seus aliados.  Daí o impeachment.

Agora, com as eleições municipais, realizou-se o último ato do ciclo petista.  Já no primeiro turno o eleitor foi implacável e no segundo turno confirmou-se a vontade popular.  Concentrando a sua rejeição no PT, o eleitor arrasou as cidadelas petistas e demoliu suas candidaturas em todo país, bradando sua rejeição aos políticos e à política em geral, como símbolos de um estado de coisas que o condena a uma vida medíocre.  Em muitos municípios levou de roldão partidos e políticos tradicionais usando, para isso, partidos e candidatos pouco expressivos. 

Esses dois fatores – a rejeição ao PT e à política tradicional, que provocaram em grande parcela da população uma reação liberal/conservadora com forte influência da direita ideológica –  foram a essência do recente processo de eleições e do fim de uma era.  

Assim, é medíocre e superficial a tentativa de se ligar os melhores resultados eleitorais a partidos e lideranças determinadas.  Esses podem, por interesses específicos, propagar suas vitórias mas os resultados, como foi visto, têm origem objetiva, principalmente na desastrosa experiência com o PT em 14 anos, com suas consequências sobre a avaliação do povo sobre a  política – atividade cuja desqualificação só pode levar ao enfraquecimento das instituições e do estado de direito democrático.  

As recentes eleições municipais não são balizas para se projetar ações eleitorais com vistas às eleições gerais de 2018.  A menos da certeza de que não só o PT, como os partidos ditos de esquerda, sofrerão um enorme revés e que o povo quer e vai querer ainda mais que mudanças sejam efetivadas, nada mais é possível prever.  Muito menos se isso se dará através dos partidos atuais ou mesmo dos líderes partidários que hoje se apresentam.

Com a derrota do PT, acaba a polarização com o PSDB.  Um quadro novo vai surgir.

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One comment

  • Alberto Mac Dowell de Figueiredo 6 novembro, 2016   Reply →

    Não há dúvidas quanto a frustração com o PT e rejeição à política tradicional. Também está claro a insatisfação geral com o modelo de representação da chamada classe politica (uma categoria social especial). Quanto tempo se pode pretender que se mantenha um representante da sociedade vinculado à proposição original, antes de se transformar em representante de si próprio, motivado mais que nada pela permanência na tal classe. Portanto, como pretender a renovação efetiva dos atuais quadros por lideranças de qualidade, se o futuro acenado é a reprodução continuada da “categoria”. Penso que para motivar a participação da sociedade em suas próprias questões, haveria de alterar a atual dinâmica de representação para um novo modelo em que haveria um necessário rodizio dos representantes limitados a uma reeleição apenas, após o que retornaria às suas funções profissionais originais, sendo substituído por um outro para o próximo mandato. A não alteração da atual dinâmica será apenas enxugar gelo, com suas excelências defendendo os próprios interesses, em vez de buscar o melhor para a sociedade. Afinal, somos todos humanos cheios de falhas.

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