Crime e castigo. Apesar do sentimento de tristeza a sociedade venceu.

Acabo de acompanhar, pela TV, a prisão dos condenados no processo do mensalão.  Apesar de reconhecer que foi um enorme passo adiante na dolorosa construção de uma verdadeira democracia – para o qual eu tive uma contribuição importante – confesso que nesse episódio em que muitos se rejubilam, tive um sentimento de tristeza e mesmo de angústia.

Durante a disputa eleitoral de 2002 em que Lula foi eleito eu argumentava,  contra os que entendiam que a sua eleição seria um desastre, que a eleição de um petista iria desmistificar um partido que tinha propostas irrealizáveis e ideologia que não tinha acolhida pelo nosso povo.   Até porque conhecia o Lula e sabia do seu absoluto pragmatismo.

Nesse sentido eu não estava errado.  O PT e Lula foram desmistificados, puseram de lado todas as propostas mais radicais e a sua ideologia para se sustentar no poder e realizar um governo que de maneira alguma assustou as áreas mais conservadoras da sociedade brasileira.  A reeleição de Lula e a eleição de Dilma são provas disso.

O que eu não esperava era que o pragmatismo do PT pudesse chegar até onde chegou: à total falta de escrúpulos.   Desde o início do governo, em 2003, já se percebia que Lula faria de tudo, o possível e o impossível, o legal ou o ilegal, para garantir a continuidade do poder para o seu grupo.   Sabíamos nós, lá no Congresso Nacional, das operações conduzidas pelos líderes petistas para a formação da maioria no Congresso, nas quais não faltava a distribuição de recursos, seja para manter essa maioria, seja para preparar o pleito eleitoral que viria.  Faltava-nos provas.

Eis que, em meados de 2005, o deputado Roberto Jeferson, presidente do PTB, dá a entrevista que abalou o país, na qual denuncia a existência de uma estrutura de distribuição de dinheiro para manter a maioria no Congresso Nacional.

A duras penas a oposição conseguiu o número mínimo de congressistas para instalar uma investigação através de Comissão Parlamentar de Inquérito, CPI que, posteriormente, veio a se chamar de CPI do Mensalão.   Nos seus 6 meses de trabalho mostrou que, realmente, houve uma ação ilegal de governo ( corrupção ativa e passiva e desvio de dinheiro público ) com a finalidade de “abastecer” a sua base de apoio.  Porém a comissão não tinha conseguido chegar às conclusões finais.  Era preciso uma prorrogação por mais 6 meses e isso era um novo requerimento com o número mínimo de assinaturas.

Aí a coisa ficou mais difícil.  Conseguimos o número mínimo mas, até a declaração final da Mesa quanto a sua constituição, o governo conseguia, usando todo o seu poder, sem quaisquer escrúpulos, que assinaturas fossem retiradas deixando-nos sem o mínimo necessário.  Consegui – na época eu era líder da bancada do PSDB na Câmara dos Deputados – guardar na algibeira 10 requerimentos ( assinaturas de apoio ) que os pegou desprevenidos sem tempo para promover mais retiradas.  Assim, com apenas uma assinatura além do mínimo necessário, a prorrogação aconteceu, a CPI chegou às conclusões conhecidas e o processo foi encaminhado ao Ministério Público que fez a denúncia com as consequências que estamos agora acompanhando.

Volto agora ao início desse texto.  O resultado do processo mostra que o governo petista, já no primeiro mandato de Lula, tinha perdido as condições morais e a capacidade de liderança para dirigir o país.  Ainda assim o povo o reelegeu e elegeu Dilma Roussef.  Eis, portanto, a razão porque a condenação dos responsáveis pelo maior escândalo da República é motivo de reconhecimento de que o país vem avançando na consolidação de instituições democráticas.  Mas, ao mesmo tempo, é motivo de tristeza ver irem para a prisão algumas figuras que tiveram importante papel no combate à ditadura e na reconstrução da democracia ( mas que se desviaram dos princípios saudáveis sob os quais deveriam agir ),  ao lado de outras personagens que mereceriam penas mais severas do que aquelas que obtiveram.

O que não é aceitável é a declaração da direção do PT de que as decisões de condenação foram políticas.  Com todo o poder que têm hoje, com o Executivo e maiorias no Congresso e uma composição do STF com maioria por eles, partido e governo, indicada, não tiveram força suficiente para subverter o processo condenatório.  A sociedade venceu.

Enfim, são as dores do parto democrático, tão longo e penoso para construirmos uma sociedade da qual todos nós possamos nos orgulhar.

 

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7 comments

  • sérgio ambrósio 16 novembro, 2013   Reply →

    Caro Goldman, em meio a todo o tipo de manifestações sobre o início do fim deste processo do mensalão, vc consegue em um texto curto e objetivo uma análise do que aconteceu com o Brasil na era PT.
    A Democracia que queremos e pela qual lutamos esta em construção, e casos como este ajudam a fortalece-la. Como diz Julieta Lui, ex-vereadora e fundadora do PT em São Carlos/SP e expulsa do partido por se colocar contra os rumos do Governo Lula, ainda no seu primeiro mandato: “A luta continua!”.
    A prisão de pessoas que achávamos combatentes nos mostra o outro lado da política, o lado podre, a falta de compromisso com a Democracia. Não devemos lamentar este desfecho, mas comemorar, pois iniciamos uma nova caminhada, onde sabemos quem é quem.
    A luta continua!

  • José Luiz Costa Pereira 16 novembro, 2013   Reply →

    E o mais importante é que a Nação pode diferenciar, corretamente , que na ditadura existem presos políticos, cujo o único crime é lutar pelas liberdades democráticas, na democracia políticos presos cujas razões são a má conduta ética e a corrupção, estes estão indo para a cadeia agora, embora alguns queiram transformar suas prisões em crimes políticos, uma agressão a aqueles que sofreram na carne as violências da .ditadura.

    • Alberto Goldman 16 novembro, 2013   Reply →

      Bem posto, José Luiz.

  • Alfredo 16 novembro, 2013   Reply →

    Goldman,

    devo começar cumprimentando-o, por justiça, pela coragem que demonstrou redigindo e assinando o texto. No quarto parágrafo voce diz:

    “Desde o início do governo, em 2003, já se percebia que Lula faria de tudo, o possível e o impossível, o legal ou o ilegal, para garantir a continuidade do poder para o seu grupo. Sabíamos nós, lá no Congresso Nacional, das operações conduzidas pelos líderes petistas para a formação da maioria no Congresso, nas quais não faltava a distribuição de recursos, seja para manter essa maioria, seja para preparar o pleito eleitoral que viria.”

    É preciso ter muita coragem sim pra dizer isso mesmo não tendo tido, no momento oportuno, a iniciativa de alertar a sociedade, pela imprensa ou mesmo em discurso no parlamento.

    Acho que a sociedade AINDA não venceu, E também não estou triste porque a prisão dos corruptos acende a esperança de que neste nosso pais nem tudo está perdido.

    E chamo a atenção também para o cuidado que todos devemos ter pra não acreditarmos em obras construidas sobre alicerces de barro. Todos esses que agora estão sendo conduzidos aos devidos lugares não eram mais do que santos do pau-oco, pessoas que desfraldaram bandeiras da democracia, dos principios republicanos. Pessoas que pegaram em armas, contra outros brasileiros. Promoveram assaltos, sequestros, tudo em nome de uma causa, um objetivo maior. Essa era a sinalização que passaram pra sociedade brasileira.

    Infelizmente, mais tarde, eles mesmo confessaram que o objetivo era apenas o poder, a implantação de um novo sistema de governo em beneficio deles proprios. A promessa de ética, de correção, de progressão social, de educação e de saude fartas, isso tudo ficou apenas na promessa. Promessas vazias, isso é o que hoje temos de reconhecer. Seguimos, acreditamos nessa gente, somos os palhaços nessa comédia !

    Hoje, todos os que lideraram o chamado combate a ditadura estão sem disfarce nenhum pregando, ansiando pelo controle da midia – novo nome pra censura – estão empenhados, focados na manipulação de consciências, vai unica pra se manterem no poder.

    Todos esses que se diziam lideres agora são, efetivamente, criminosos sentenciados. São bandidos especiais, todos com curso superior. Têm mestrado no crime, na corrupção.

    Goldman, não posso ficar triste vendo tais individuos sendo levados pra trás das grades. O que lamento é que isso não aconteceu antesx, de forma preventiva.

    Finalmente peço, encarecidamente que me considere um conservador, porque o que salta aos olhos é que nós conservadores temos princípios, somos fieis a estes principios. Peço encarecidamente a Deus que ilumine o povo brasileiro pra que consiga separar o joio do trigo, que deixe de votar/eleger tais sepulcros caiados. É o que espero.

    • Alberto Goldman 18 novembro, 2013   Reply →

      Alfredo, ser conservador não é acusação, não é crime. É uma condição ideológica, política. Como vc diz são princípios nos quais vc acredita. Quanto ao fato de eu não denunciar à época, publicamente, só poderia fazê-lo se tivesse provas. Caso contrário seria leviandade e crime de calúnia e difamação.

  • José Antônio Cazella 16 novembro, 2013   Reply →

    O Brasil parece estar mudando. Se as condenações resultarem em efetiva prisão, haverá esperança; se terminarem em prisão domiciliar, a mentira prevalecerá.
    Para melhorar a confiança na justiça brasileira, resta processar e condenar os autores da privataria tucana, que enriqueceu FHC, Serra e aliados com a vergonhosa venda das estatais. Só os alienados e os coniventes afirmam que não houve fraude nas privatizações. O escândalo do PSDB não é menor que o escândalo do PT. Apenas, não foi devidamente julgado. Se houver julgamento, semelhantes sentenças atingirão figuras ditas impolutas da política brasileira, mas acobertadas pela capa da hipocrisia sob a qual sempre se esconderam.

    • Alberto Goldman 18 novembro, 2013   Reply →

      José Antonio, não houve enriquecimento nem do FHC nem do Serra. Você é leviano. Não houve fraude nas privatizações, eu acompanhei, o MPF e o Tribunal de Contas também. Não sou alienado, muito menos conivente com qualquer irregularidade. São 40 anos de atividade política sem ter sido, em qualquer momento, sequer alvo de investigação. Escândalo do PSDB não houve, pode ter havido, não posso jurar, atos individuais de pessoas sem importância partidária. No caso do PT foi a cúpula do partido e do governo. Repito, deixe de ser leviano.

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