Caro Amigo

Um amigo mandou-me um e-mail em que faz considerações críticas ao PSDB, segundo ele, sob uma ótica de Esquerda. O PT ainda seria a alternativa de Esquerda, já que o PSDB caminhou para a Direita. Reproduzo aqui a minha resposta:


“Você define essa ótica (de Esquerda) como a daqueles que tem como objeto de seus posicionamentos políticos a qualidade de vida dos deserdados do mundo, em contraposição aos que – pensamento da Direita – tem como objeto o seu próprio umbigo (e de sua classe).

Concordo. Essa é uma condição necessária para a qualificação da Esquerda. Mas é absolutamente insuficiente. Essa qualidade já permeou e permeia religiões e regimes políticos os mais diversos, ditos de Esquerda ou de Direita. De todas as características mais importantes do que entendo ser Esquerda, a essencial, central, é incorporar os valores democráticos, a Democracia como valor universal, estratégico, não como um simples instrumento tático para a chegada ao poder. E é no cerne dessa Democracia que se desenvolvem outros conceitos, como a questão da modernização do Estado, a separação entre o público e o privado, a clara definição do papel de cada um desses atores.

O meu liberalismo econômico, desse mal você nos acusa, incorpora os valores acima citados, e difere, por isso, do conceito tradicional. Cada um terá o seu conceito de liberalismo econômico, já que não se fala mais em socialismo, o capitalismo é aceito como um dado da realidade.  De qualquer forma não pretendo abrir mão da chamada moralidade administrativa, rotulada por você como um conceito udenista (não vou entregar essa bandeira à Direita).

Esse é o meu rótulo de Esquerda, à qual me julgo pertencer. E, ao contrário do que você coloca, são esses conceitos que, a meu ver, empurram o PSDB mais para a Esquerda.

Dito isso, concluo, não dá para chamar o PT de um partido do espectro da Esquerda. Faltam-lhe as principais características citadas. Caminha mais, rapidamente, na direção do absolutismo e do fascismo (sem excluir as características de quadrilha).

Quanto ao PSDB, vamos colocá-lo no contexto histórico. Sua formação é produto do ajuntamento de figuras políticas expressivas, elas sim, que podem ser classificadas nos conceitos de Esquerda, acima expostos, porém sem bases populares. É um partido com peso majoritário da classe média mais esclarecida. Como partido tem leves tonalidades esquerdistas, mais como influência de seus fundadores do que, ideologicamente, assumidos os conceitos de Esquerda acima expostos. Por isso ainda mantém, seja por convicção ou por oportunismo, as bandeiras que você julga esquecidas. A menos do parlamentarismo que o povo, e agora o Lula com sua presença absoluta, enterraram.

Quanto à sua sentença final – a escolha do Índio para vice do Serra como divisor de águas quanto à origem ideológica do PSDB sobre a qual já falei – é parte da tragédia da política brasileira. A mesma que fez o Lula escolher o José Alencar para seu vice e agora Michel Temer. Para não dizer da própria Dilma, figura sem qualquer vínculo mais expressivo com a História do Brasil nas últimas décadas.

Sobre o Alencar, em 2002 entrei com uma representação contra a sua empresa, a Coteminas, por irregularidades na participação em leilões da CONAB, promovendo fraude contra o governo. Naturalmente, o processo foi arquivado. E o Michel Temer, o que você acha? O Índio, que você classifica de playboy, e não conheço, não pode ser pior. Aliás, o vice do Mercadante é o desconhecido “Coca” Ferraz, e por  pouco não é o major Olímpio, da linha mais raivosa e radical da PM.

Assim, as suas conclusões para convencer que o PT foi conduzido ao status de opção única à Esquerda, a meu ver, são equivocadas.  Com todos os seus defeitos, melhores ainda são os candidatos do PSDB.

Do amigo, Alberto Goldman”

P.S. Acabo de ler as declarações do Lula: “nós somos a opinião pública”. Não difere muito do “L’État c’est moi” (“o Estado sou eu”).

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4 comments

  • Anonymous 21 setembro, 2010   Reply →

    Essa é a boa discussão política que está se fazendo necessária. Parabéns, Goldman, por colocá-la em pauta em seu Blog nesse momento eleitoral tenso e delicado.
    Para ajudar a bem localizar o melhor eixo desse debate, na verdade no e-mail que lhe enviei não propus o PT como a boa alternativa à Esquerda. A partir de uma análise política o objetivo foi expressar um chamamento ao PSDB para que recupere o espaço político/ideológico de Centro-Esquerda, recuperando-se então, também, como outra alternativa nacional à Esquerda. Ou seja, hoje o PT se apresenta como única alternativa simplesmente pela inexistência deliberada de outras correntes de pensamento que disputem esse mesmo espaço. O que é péssimo sob todos os aspectos, especialmente para a Democracia.
    Abraços,
    O amigo.

  • Anonymous 21 setembro, 2010   Reply →

    Governador

    A sintese desse dia 20, foi quase perfeita, não bastasse para corroborá-la, a frase do Lula, do pensamento mais-que-perfeito facista.

    Pena que o povo afagado pelos bons ventos atuais, parte importante fruto das reformas estruturais conduzidas pelos governos do PSDB, não tendo a necessária visão crítica, não perceba o pouco apego aos valores democráticos desses cupins instalados no governo federal.

  • Anonymous 26 setembro, 2010   Reply →

    As únicas opções de esquerda são o PSTU e o PSOL. O resto só vai perpetuar o capitalismo (interesses das empresas)

  • Jorge Luis Dos Santos B. 17 outubro, 2010   Reply →

    As privatizações do governo FHC

    Durante o debate do dia 10.10.10, na TV Bandeirantes, os candidatos trataram novamente do tema, recorrente, em período de eleições:- as privatizações de empresas estatais.

    Como perguntar não ofende, gostaríamos de saber por qual motivo ninguém informa os seguintes dados:- quantas empresas foram privatizadas durante o governo FHC; qual era o faturamento anual de cada empresa; qual era o total de recursos financeiros, do orçamento federal, que eram necessários para ‘suportar’ o seu funcionamentoo seu funcionamento [aspiradores de dinheiro público, sacos sem fundo!]; qual era o total de impostos que recolhiam aos cofres públicos por empresa; qual era o número total de empregos nessas empresas, existentes por concurso público e em ‘cargos de confiança’; comparados com os mesmos dados de 2010 ou 2009.

    Provavelmente, assim, poderemos compreender por qual motivo o atual governo federal sempre ataca esta importante iniciativa do governo FHC. Hoje, eles não têm empresas e cargos para ‘arrumar’ a vida, dentre aqueles +- 40.000 companheiros, que precisam dos ‘cargos de confiança’.

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