A nova direita

 

Vivemos um dos momentos mais graves pelos quais já passou o Brasil nas últimas décadas.

Após a vitória de Lula e do PT em 2002 havia a esperança da continuidade da construção da democracia e dos avanços sociais conquistados com os governos de Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso.  Contudo o povo brasileiro foi frustrado, pois na ânsia de manter o poder a todo custo o PT usou de todos instrumentos, lícitos ou ilícitos, republicanos ou não, democráticos ou autoritários, maculando gravemente os seus próprios compromissos ao transformar o Estado em instrumento do próprio partido e de seus aliados e usá-lo para praticar atos moral e politicamente inaceitáveis de gestão do dinheiro público.

Isso levou o país a uma crise sem precedentes que hoje vivenciamos.

A ação petista pela sua amplitude e profundidade abalou todo o país e atingiu grande parte das lideranças políticas, em especial do PT e dos partidos da base de sustentação do governo, com ele comprometidos.   A troca de favores entre agentes públicos e privados produziu grave deterioração moral e administrativa nas relações políticas dentro da sociedade brasileira.

É nesse clima de agravamento da vida política nacional e da maior recessão de nossa história que um setor da sociedade, a nova direita, o conservadorismo mais atrasado, tacanho, de princípios democráticos muito tênues, com o típico oportunismo de uma elite econômica situada no topo da pirâmide de renda e o arrivismo de muitos que aparecem como salvadores da pátria, vêm se sobressaindo no discurso da anti-política, da capacidade de gestão como o “novo” e mais importante patrimônio dos dirigentes públicos, da “delenda” a política, “delenda” os políticos.

A conjuntura cria essas figuras perigosas, pois buscam o aplauso fácil da ignorância e da mediocridade.  A criminalização da política é o seu meio de vida e de defesa de seus interesses mesquinhos.

Para atingir seus objetivos esse setor tenta misturar no mesmo saco da corrupção figuras que comprovadamente transformaram a atividade política em uma atividade criminosa de enriquecimento pessoal e de ascensão ao poder com figuras que durante décadas deram uma contribuição decisiva para que a Democracia fosse reconquistada e para que o desenvolvimento econômico pudesse se dar com o combate às injustiças sociais.

Muitos dos que mereceram o meu respeito já se foram e muitos sobreviveram, moral e politicamente inclusive.  Outros se bandearam para o lado do crime.  Literalmente.

Acompanhei por décadas a vida política nacional com figuras que já nos deixaram mas que foram fundamentais para a vida democrática que conquistamos: Ulisses Guimarães, Tancredo Neves, Miguel Arraes, Teotônio Vilela, Alencar Furtado, Freitas Nobre, Itamar Franco, Franco Montoro, Mario Covas e muitos outros.  Outros tão importantes e tão merecedores de nosso respeito estão vivos: Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Almino Afonso, Geraldo Alckmin, Aécio Neves, Jarbas Vasconcelos, Pedro Simon e muitos mais.

A todos eles a realidade eleitoral brasileira obrigou a se relacionar como empresários bem sucedidos em função da busca de recursos financeiros para a manutenção de campanhas eleitorais.  Porém eles sempre souberam fazer prevalecer o interesse público em face do interesse privado e isso os distingue daqueles políticos que, através do conluio com interesses econômicos privados, através de acertos ilegais de diversas naturezas, fizeram acordos que representaram um verdadeiro assalto ao dinheiro público.

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.   Uma coisa é aceitar uma contribuição de campanha, mesmo solicitá-la, sem uma contrapartida que fira o processo legal ou favoreça alguém, sem subordinar o interesse público ao interesse privado.   Outra coisa é o toma cá, dá lá, um processo em que o empresário se torna corruptor e o político, corrupto.

A nova direita que coloca o seu nariz para fora depois da aventura do regime autoritário, os novos ditos empresários puros, sem mácula, que enriqueceram pretensamente apenas à custa de seu trabalho, esforço e competência, que se aproveitam da destruição de parte da esquerda que apodreceu, do período petista que destruiu a economia do país e tornou irrespirável a vida política nacional, já teve vitórias expressivas nas últimas eleições municipais.  Pretende agora repetir a dose nas eleições estaduais e na eleição nacional de 2018.

Ela viceja na política de terra arrasada. Não vamos aceitar essa estratégia que pretende levar ao poder pessoas sem passado político, sem qualificação para o exercício de funções públicas, sem compromisso com os partidos, sem compromisso com a Democracia e portanto sem compromisso com o combate por uma vida melhor para o nosso povo.

Não será a destruição generalizada dos políticos como se todos fossem autores dos males que nos afligem, sem distinção de qualquer natureza, que irá purificar a vida política e abrir um horizonte de dias melhores.

A política é uma ação nobre e necessária, a forma das pessoas participarem da vida pública e mudarem a sociedade em que vivemos.  O resto, o que assistimos nesses últimos anos, não é política, é o exercício criminoso do poder.

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5 comments

  • João Luiz Saracchini 31 março, 2017   Reply →

    José Serra na lista de políticos exemplares?
    E as manobras para tirar o Aécio da linha de frente?
    E o Aécio com o nome incluso nas listas de corrupção. E o Alkmin com o caso do Metrô de SP sem explicação?
    Goldman, não dá. Está difícil achar um politico confiável e ao fazer essa lista vejo que você joga o mesmo jogo de todos.
    Essa atitude de proteger quem me agrada e atacar quem põe em risco o meu conforto é que leva as pessoas a se jogarem aos pés de ilusionistas.
    O povo não é bobo, ele se vinga dos políticos fisiologistas, corruptos e mentirosos, colocando a oposição, mesmo que falsa, no poder, pois para o povo tanto faz, ele sempre paga o pato, então pelo menos estraga a festa de políticos como você.
    Se uma pessoa para assumir qualquer cargo público tiver que ter passado politico, quando é que vamos renovar? Como alguém vai entrar na política?
    Se o pessoal da sua lista, dos mortos e dos vivos, tivessem trabalhado em prol do Brasil, os ricos não seriam os donos dos políticos. Hoje político vai de pires na mão pedir dinheiro para campanha e diz para o povo que não precisa dar nada em troca. Ora, você acredita nisso?
    Quando as eleições não precisarem de fortunas para eleger alguém, voltamos a conversar. Por enquanto eleição neste país são para escolher o funcionário do quadriênio e não o gestor público.

    • Alberto Goldman 31 março, 2017   Reply →

      Respeito suas opiniões, mas não têm nada de construtivo. Vão na mesma linha da “direita” oportunista.

  • FLAVIA ISA OBINO BOECKEL 31 março, 2017   Reply →

    Arthur da Tavola, Cristina Tavares, Celio Borja, Geraldo Freire, Marco Maciel, Egídio Ferreira Lima e alguns dentre os fundadores do PT como Florestan Fernandes e Helio Bicudo poderiam constar dessa relação.
    Fui funcionária concursada da Câmara dos Deputados onde tive o privilégio de conviver com esses políticos sérios e honestos de lá, em tempos de muito trabalho para políticos e funcionários.
    Hoje temos Alvaro Dias e um jovem de Brasília, Reguffe, que primam pela lisura de atitudes e comprometimento com os mais nobres ditames da boa política.
    Como assessora da Mesa, trabalhando com Paulo Affonso tive contato muito próximo com todos os mencionados, daí sentir a necessidade de comentar seu artigo como faço agora, leitora assídua de seus textos.

    • Alberto Goldman 31 março, 2017   Reply →

      Flavia vc está com a razão. Poderíamos citar muitos mais, inclusive do PT.

      abs

  • Luiz Loureiro 31 março, 2017   Reply →

    Caro Goldman
    Incluo o seu nome na lista de figuras importantes da política brasileira. Trabalhei com Montoro e Covas. Sei do que você está falando.
    Concordo com que a ascensão de “não políticos”, como consequência da decadência do PT e de outras “esquerdas”, não é benéfica.
    Mas, infelizmente, o povo cansou-se dos políticos “tradicionais” e demonstrou isso nas urnas. Nas épocas de crise, sempre aparecem os espertalhões, salvadores da pátria. E o eleitor, desempregado, passando necessidade, desiludido, responde emocionalmente e mistura tudo e coloca todos os políticos no mesmo cesto de corruptos. Como resolver isso? Os políticos mais velhos, como os citados, são essenciais, não só pela experiência mas, principalmente, por terem tido a oportunidade de mostrar serviço, honestidade e compromisso. Mas, cadê as novas lideranças? Só vemos jovens atuantes na Polícia Federal e no Ministério Público. E na política, onde estão os jovens, que teriam muito a contribuir e apreender com os mais velhos?

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